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Crise energética: verão passa ao largo dos aeroportos portugueses, mas passagens aéreas podem subir no inverno

Jovem com mochila usa quiosque de autoatendimento no aeroporto com avião visível ao fundo.

O efeito da crise energética neste verão tende a não atingir os aeroportos portugueses: até agora, não há registro de voos cancelados, redução de rotas nem limitações no abastecimento de combustível, e a expectativa é, inclusive, de um leve aumento em relação a 2025. O impacto pode aparecer mais adiante, no inverno, quando a alta no preço das passagens aéreas - refletindo o encarecimento do combustível - começar a esfriar a demanda.

Crise energética e aeroportos portugueses: cenário do verão

A ANA não está a registar até ao momento cancelamentos por questões relacionadas com o jet fuel nos aeroportos portugueses”, informou ao Expresso a operadora dos aeroportos nacionais. Por ora, a oferta de voos não está encolhendo em Portugal. A TAP, que responde por quase metade do aeroporto de Lisboa, vem racionalizando a operação, mas sem cancelamentos e, segundo apurou o Expresso, tem observado uma procura ligeiramente acima de 2025.

Esse quadro ainda se explica, em parte, por reservas feitas antes de EUA e Israel bombardearem o Irã e de o fechamento do estreito de Ormuz fazer disparar os preços dos combustíveis. Portugal também se beneficia de uma menor dependência do Oriente Médio: 70% a 80% do petróleo fornecido ao país chega via África e Brasil, e a maior parte do jet fuel consumido por aqui é refinada em Sines. Nesta semana, no Parlamento, a ministra do Ambiente e Energia, Graça Carvalho, afirmou que o governo de Lula da Silva garantiu que o Brasil poderá ampliar a exportação de combustível caso haja escassez nos aeroportos portugueses.

Risco para o inverno: custo, demanda e possíveis restrições

Ainda assim, há risco de que os próximos meses sejam mais complicados, em Portugal e no restante do setor, num contexto global em que já foram anunciados milhares de cancelamentos. “Agora é só uma crise de preço mas se a guerra no Irão não acabar dentro de algumas semanas pode ser mesmo uma crise do abastecimento. Uma crise de preço, durante muito tempo depois transforma-se numa crise de abastecimento”, alertou a ministra Graça Carvalho.

Na Europa, ainda não se observam falhas no fornecimento às companhias aéreas nem aeroportos restringindo de modo visível o acesso ao jet fuel. Mesmo assim, a apreensão é elevada, já que a duração da crise é imprevisível. Algumas companhias já pedem aos reguladores exceções às regras sobre uso de slots (faixa horária para decolagem e pouso) no inverno, antecipando uma desaceleração da atividade, com recuo da demanda e limites ao uso de combustíveis.

Preços vão subir mais

Desde o início do conflito no Oriente Médio, as passagens aéreas já ficaram mais caras, influenciadas pela quase duplicação do preço do petróleo. A TAP, como a maioria das companhias, evita se alongar no tema, mas já havia sinalizado - ao divulgar os resultados de 2025 - a possibilidade de ajustar preços para absorver a alta dos custos de combustíveis. A IAG, grupo que reúne Iberia e British Airways, também se manifestou na mesma direção.

Fornecido via África e Brasil, Portugal não enfrenta para já problemas no acesso ao combustível

Segundo fontes com conhecimento do assunto e participantes do setor, os aumentos mais fortes, por enquanto, aparecem sobretudo em voos de longa distância. A Air France/KLM, informou a Reuters, já reconheceu que pode cobrar uma espécie de taxa adicional de €50 para viagens de ida e volta em rotas de longa distância. Já dentro da Europa, onde a concorrência é mais intensa, os reajustes ficam menos evidentes. Ainda assim, a low cost do grupo franco-neerlandês, a Transavia, aumentou o preço das viagens em €5 a partir de março.

A alta não se limita às passagens e às sobretaxas de combustível. Há empresas optando também por encarecer o que cobram por bagagem despachada ou pela seleção de assentos. De acordo com o jornal Público, companhias norte-americanas como United, American e Delta elevaram os preços da bagagem despachada em cerca de 10 dólares.

É difícil cravar até onde as tarifas continuarão subindo, porque a conta envolve muitos fatores, dos custos do jet fuel à sua disponibilidade. No limite, porém, a demanda e a concorrência tendem a ser decisivas no resultado final. Como a fatura de combustíveis representa 20% a 30% dos custos das companhias aéreas, e apesar de muitas adotarem políticas de proteção (hedging), a alta do petróleo acaba, inevitavelmente, chegando ao preço das passagens. Ainda assim, é a demanda que define o tamanho do repasse.

Por enquanto, a procura segue firme. “A procura é elástica e na aviação tem dado provas de que consegue esticar, mas há limites”, conclui uma fonte do setor ouvida pelo Expresso. Enquanto o conflito no Oriente Médio continuar, a aviação seguirá em um cenário de incerteza.

P&R

Meu voo foi cancelado: o que devo fazer?

Se o voo for anulado ou se a partida for antecipada em mais de uma hora, considera-se que houve cancelamento. Nessa situação, o passageiro deve entrar em contato com a companhia aérea e formalizar uma reclamação por meio de formulário específico. Se não houver resposta em até dois meses, é possível reclamar junto à Autoridade Nacional da Aviação Civil.

Que direitos tem o passageiro?

O passageiro pode escolher entre reembolso ou um voo de retorno na primeira oportunidade, ou ainda em data conveniente. Também tem direito à assistência prestada pela companhia aérea, que inclui telecomunicações, alimentação, hospedagem e transportes.

Pode solicitar indenização se o cancelamento não for comunicado nos 14 dias anteriores à viagem. O valor varia entre €250 e €600, conforme a distância do voo. Contudo, pode ser reduzido pela metade se o voo alternativo chegar ao destino até duas horas após o horário inicial. Não há indenização se o consumidor for informado do cancelamento entre sete a 14 dias antes do voo e lhe tiver sido oferecido um voo alternativo, ou quando o cancelamento decorre de circunstâncias extraordinárias, como mau tempo, riscos de segurança e instabilidade política.

E o que acontece às reservas dos hotéis?

O hotel não é obrigado a cancelar ou reembolsar a reserva por causa do cancelamento do voo. Isso depende da tarifa do hotel, que pode ser flexível ou não reembolsável. Ainda assim, o viajante deve contatar o hotel, a plataforma de reservas ou a agência de viagens.

Eunice Parreira

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