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Surto de hantavírus no MV Hondius mobiliza OMS e leva navio às Ilhas Canárias

Profissional em equipamento de proteção controla acesso em porto com navio e tendas ao fundo.

No Dia da Mentira, pouco mais de uma centena de passageiros embarcou no cruzeiro “MV Hondius”, em Ushuaia, na Argentina. A viagem prometia atravessar o Atlântico Sul e passar por alguns dos pontos mais isolados do planeta, com cenários preservados, vida selvagem, icebergs e fotos “de outro mundo”. O roteiro, porém, foi abalado por um evento inesperado: um surto de hantavírus que infectou passageiros e integrantes da tripulação e manteve dezenas de pessoas retidas no mar. Enquanto quem segue a bordo lida com a incerteza sobre a própria saúde e sobre o destino do navio, no plano internacional correm esforços para identificar a origem da transmissão e localizar o caminho percorrido por passageiros que desembarcaram antes de o surto ser conhecido.

Surto de hantavírus no MV Hondius

A Oceanwide Expeditions, operadora do cruzeiro, informou na quinta-feira que 114 passageiros embarcaram em Ushuaia e que 30 desembarcaram na ilha de Santa Helena em 24 de abril. Entre essas pessoas estava uma cidadã neerlandesa, que foi hospitalizada na África do Sul e acabou morrendo, além de um suíço que também recebeu atendimento médico.

Rastreamento internacional e avaliação da OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) comunicou 12 países com cidadãos que deixaram o navio nesse trecho da viagem:

  • Alemanha
  • Canadá
  • Dinamarca
  • Estados Unidos
  • Nova Zelândia
  • Países Baixos
  • Reino Unido
  • São Cristóvão e Neves
  • Singapura
  • Suécia
  • Suíça
  • Turquia

De acordo com a OMS, há oito casos de hantavírus - cinco confirmados e três suspeitos. A entidade afirma estar cooperando com diferentes países no rastreamento internacional de contatos e no monitoramento de pessoas possivelmente expostas, com a meta de conter qualquer nova disseminação da doença.

Apesar de ser um incidente sério, a OMS avalia o risco público como baixo”, declarou nesta quinta-feira o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus. A cepa envolvida pode ser transmitida entre pessoas, mas isso é “pouco comum” e “tem sido associada a contato próximo e prolongado”, acrescentou, indicando que o mesmo parece valer para este episódio. A OMS diz ter conhecimento de relatos sobre outras pessoas com sintomas que podem ter tido contato com um dos passageiros; garante que segue em diálogo com as autoridades competentes e não descarta a possibilidade de surgirem mais casos, já que o período de incubação pode chegar a seis semanas.

Braço de ferro

Até o fechamento desta edição, persistiam atritos sobre o que aconteceria com a embarcação. Depois de o navio ter ficado ancorado ao largo de Cabo Verde, a Espanha concordou que ele seguisse para as Ilhas Canárias, onde os passageiros passariam por atendimento e seriam repatriados. Ainda assim, o presidente do Executivo canário, Fernando Clavijo, criticou a decisão.

Antón Losada, professor de Ciência Política na Universidade de Santiago de Compostela, avalia que a disputa política não deve interferir no manejo sanitário e que as repatriações tendem a ocorrer sem sobressaltos. “É uma decisão nacional, não regional. Há eleições na Andaluzia no dia 17 de maio. Assim se explica a posição do PP (Partido Popular, direita) e do Vox (extrema-direita), embora o PP já tenha começado a suavizar o tom.” Em declarações ao Expresso, o acadêmico acrescentou: “Estão 14 espanhóis a bordo. O Governo tem a opinião pública a seu favor nesta matéria. Só uma falha grave na gestão poderia enfraquecer a sua posição.

No arranjo institucional espanhol, a gestão da saúde pública cabe às comunidades autônomas, enquanto o governo central preserva autoridade em certas frentes - inclusive em situações com repercussão internacional, como a crise do hantavírus. Para o professor de Estudos Hispânicos Sebastiaan Faber, a ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, “longe de ser invisível”, vem desempenhando “um papel de liderança”.

Segundo Faber, no começo Clavijo estava “determinado a politizar a situação, enquadrando como uma imposição a decisão do Governo central para o acolhimento dos passageiros”. A ministra buscou demovê-lo, mas, como observa o pesquisador, Clavijo manteve sua postura inicial “não só como líder das Canárias, mas também como representante de uma comunidade que, por vezes, ainda se sente tratada como uma colónia pelo Governo central”.

‘Luz verde’ de Sánchez

Embates desse tipo já apareceram antes, por exemplo em torno dos centros superlotados nas Canárias que recebem refugiados e solicitantes de asilo, tema no qual o governo regional cobrou do Executivo de Madri soluções consideradas mais sustentáveis. “Tudo isto é importante porque o Governo de Pedro Sánchez necessitará do apoio do partido de Clavijo, a Coligação Canária, no Parlamento central, para aprovar o seu Orçamento.”

No caso do “Hondius”, o diretor-geral da OMS disse ter encaminhado uma carta ao primeiro-ministro espanhol, agradecendo a ‘luz verde’ dada por Sánchez. Na mensagem, indicou que o navio seguia rumo às Canárias e afirmou que a organização estava “confiante na capacidade de Espanha gerir este risco. Toda a gente tem o dever moral de cuidar das pessoas no navio. Espero que os que têm preocupações nas Canárias cooperem com o Governo federal”.

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