Ao longo de séculos, o Império Romano ajudou a moldar a humanidade durante o seu domínio - e, depois disso, deixou um legado que segue influenciando a civilização.
Ainda assim, até os romanos antigos precisaram se apoiar no que veio antes.
Isso inclui não apenas civilizações anteriores, como Egito e Grécia, mas também inúmeras populações pré-históricas cujas inovações, em grande parte, se perderam no tempo - ou, em alguns casos, foram atribuídas por engano a gerações posteriores.
Um novo estudo relata que uma técnica sofisticada de produção de reboco, por muito tempo creditada aos romanos, já era usada por pessoas do Neolítico cerca de 8.000 anos antes.
Como isso pode acontecer?
O Império Romano e a reputação de engenharia
A Roma Antiga é famosa pela sua capacidade de engenharia, evidente em obras emblemáticas como os aquedutos e o Panteão. Além de talento em projecto e execução, construtores romanos provavelmente contavam com materiais duráveis, incluindo concreto resistente e outros insumos de alta qualidade.
Em alguns edifícios romanos, aparecia um reboco à base de dolomita - uma pasta de secagem rápida - que é mais forte e mais resistente à água do que os rebocos calcíticos tradicionais, comuns em diferentes períodos da Antiguidade.
"No entanto, usar cal dolomítica é desafiador e exige um elevado nível de conhecimento em todas as etapas de preparação, o que pode explicar por que não é comumente encontrada em sítios arqueológicos", escrevem os pesquisadores.
Cal dolomítica: o que é e por que é tão difícil
Dolomita é o nome de um mineral composto por carbonato de cálcio e magnésio, ou de uma rocha formada majoritariamente por esse mineral. Assim como o calcário calcítico, ela pode servir como fonte de cal (material inorgânico), que por sua vez pode ser útil na produção de certos materiais de construção.
Segundo os autores, o registo escrito mais antigo sobre cal dolomítica parece vir do arquiteto e engenheiro romano Vitrúvio, no século I a.C.
Embora Vitrúvio não cite a dolomita pelo nome, ele aparenta descrever o mineral ao discutir a produção de cal.
O reboco já era amplamente usado muito antes de Vitrúvio, mas há poucos sinais de que alguém tivesse recorrido à cal dolomítica antes da descrição feita por ele, há cerca de 2.000 anos.
Evidências arqueológicas indicam que, na pré-história, os principais materiais para produzir reboco eram calcita e gesso.
Motza no Neolítico: pistas nas Colinas da Judeia
Ainda assim, há cerca de 10.000 anos, pessoas de um assentamento neolítico nas Colinas da Judeia aparentemente produziram reboco à base de dolomita - e deixaram indícios discretos que, até agora, haviam passado despercebidos, relatam os pesquisadores.
Situada no que hoje é Israel e Palestina, a região já era um centro de atividade humana naquele período, repleta de assentamentos milhares de anos antes do início da Idade do Ferro ou do Império Romano.
Um desses assentamentos acabaria dando origem ao sítio arqueológico moderno conhecido como Motza, a cerca de 5 quilômetros a oeste de Jerusalém. Foi ali que os pesquisadores realizaram uma série de escavações entre 2015 e 2021, antes da construção de uma autoestrada atravessar a área.
Ao analisar múltiplas ocupações acumuladas ao longo de milénios, a equipe concentrou-se num grande assentamento neolítico datado de aproximadamente 9.000 anos atrás. Eles identificaram mais de 100 pisos de reboco desse período, observando que muitos estavam "particularmente bem preservados e revestidos com pigmento vermelho".
Os pesquisadores também encontraram fornos separados nos quais os moradores queimavam calcário ou dolomita para fabricar reboco, um sinal de sofisticação que nem sempre é associado a populações neolíticas.
Fornos especializados e uma técnica inesperadamente avançada
Para fabricar reboco, a cal calcítica e a cal dolomítica exigem condições diferentes, explicam os autores; e, ao que tudo indica, essas pessoas pré-históricas entendiam isso bem o bastante para construir fornos especializados para cada substância.
Produzir reboco com dolomita já seria um feito notável para humanos daquele período, mas o procedimento usado em Motza continua chamando atenção mesmo segundo padrões atuais, acrescentam os pesquisadores.
"Eles podem ter conseguido fazer reboco dolomítico em que a dolomita fica totalmente recristalizada juntamente com a calcita, algo que, até onde sabemos, não foi observado em nenhum outro lugar e era considerado fisicamente impossível", escrevem.
Além de tirar proveito da abundância local de dolomita, esse método provavelmente gerava um reboco superior para uso em construções, com maior resistência e melhor desempenho contra a água do que alternativas tradicionais.
Dada a dificuldade de produzir reboco à base de dolomita - e a ausência de evidências mais antigas -, por muito tempo o crédito pela invenção da técnica foi atribuído à Roma Antiga.
Embora seja possível que a técnica tenha sobrevivido por 8.000 anos após Motza e reaparecido mais tarde em Roma, a falta de evidências arqueológicas nesse intervalo parece sugerir que os romanos a redescobriram de forma independente.
"Os resultados sugerem uma tecnologia perdida pela história", escrevem os pesquisadores.
O estudo foi publicado na Revista de Ciências Arqueológicas.
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