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Nelo Kayaks: da oficina de Manuel Alberto Ramos à gestão de Nuno André Santos

Homem remando em canoa preta próximo a um cais de madeira em um lago ao entardecer.

No fim dos anos 1970, quando Manuel Alberto Ramos começou a fabricar caiaques para uso próprio, o material era madeira e Portugal mal aparecia no mapa da canoagem. Quase 50 anos depois, a realidade é outra: as embarcações passaram a ser feitas em fibra de carbono, carregam uma forte dose de tecnologia, a exigência do esporte mudou drasticamente e a Nelo Kayaks se consolidou como fornecedora de várias das principais seleções olímpicas - com barcos responsáveis por mais de uma centena de medalhas nos Jogos Olímpicos.

Nos últimos anos, Manuel Alberto Ramos, o Nelo - nome que virou a marca comercial da MAR Kayaks - também deixou o cargo de presidente executivo (CEO) para Nuno André Santos, economista que trocou o setor bancário pela água. Hoje, ele comanda uma fábrica com 180 pessoas, de onde saem 3 mil embarcações por ano, majoritariamente destinadas à exportação. O prestígio de equipar atletas medalhistas é enorme, mas a Nelo Kayaks também dá retorno financeiro, conta Nuno André Santos: a empresa fatura em torno de €10 milhões por ano. Ainda assim, como ele próprio descreve, “há uma inquietude que não nos deixa ficar ricos: temos o vício de o gastar em investir, em crescer, em tentar ser melhores, em tentar ter mais ferramentas para evoluir, tentar fazer as coisas melhores. Gosto de pensar que ainda não tivemos o tempo de nos sentarmos a contar o dinheiro”.

Inovação e produção na Nelo Kayaks

Um marco que diferenciou a empresa cedo foi ter sido a primeira do mundo na canoagem a contar com uma CNC própria: uma máquina de 7 metros que opera como uma impressora 3D e que, há mais de 20 anos, tornou possível projetar, cortar e testar novos modelos de barcos diretamente na fábrica - numa lógica que antecipou métodos hoje comuns em setores como o automotivo.

Com o tempo, essa forma de trabalhar se ampliou. Segundo Nuno André Santos, a Nelo incorporou estufas para dar conta da personalização pedida por atletas, passou a usar materiais pré-impregnados, de maior complexidade tecnológica, e adotou também a rotomoldagem, aplicada na fabricação de embarcações plásticas mais resistentes e produzidas em maior escala.

Atletas, personalização e centros de treino

A proximidade com os atletas é outra assinatura do negócio. “Centramo‑nos em dar essas condições aos que hoje são os melhores atletas do mundo, fazendo com que participem no processo de decisão”. Participar das decisões inclui definir cores e modelos, mas vai além: envolve também “trocar impressões sobre pequenos detalhes” que são decisivos para o atleta confiar no barco. Afinal, mesmo com a melhor construção possível, “se não houver essa empatia, essa sincronia, é impossível” chegar a um bom produto.

Por isso, quando questionam Nuno André sobre como a Nelo Kayaks consegue reunir tantos clientes medalhistas nos Jogos Olímpicos, a resposta não muda: “Fazemos os melhores barcos do mundo porque temos os melhores atletas do mundo. E temos os melhores atletas do mundo porque fazemos os melhores barcos do mundo.” Para ele, uma coisa depende da outra.

Essa estratégia também passa por infraestrutura e presença no circuito: a Nelo montou centros de treinamento - dois próprios, na represa da Aguieira e no Douro - e acompanha atletas em competições internacionais para oferecer suporte. Se, no começo, trazer atletas para Portugal era quase uma necessidade, “para mostrar que éramos capazes de desenvolver barcos de alta performance” num país visto com desconfiança, hoje, com uma seleção nacional forte e reconhecimento fora do país, eles seguem vindo não para provar nada, mas porque a convivência próxima acelera a evolução de todos.

Da banca para a água

Formado na Faculdade de Economia do Porto, Nuno André Santos diz que também foi influenciado pela figura de Belmiro de Azevedo - “inspiro-me por aquela audácia, por aquela tenacidade, aquela capacidade de não olhar às barreiras”. Ao concluir a graduação, começou a carreira num banco. Naquele período, ele já praticava canoagem, seguindo o pai, e alimentava o objetivo de se tornar o melhor atleta do mundo - até aceitar o convite de Manuel Ramos para mudar de rumo.

Ele entrou na Nelo Kayaks há 26 anos, numa fase em que a empresa tinha três dezenas de pessoas. Hoje, é o CEO de uma unidade em Vila do Conde com 20 mil metros quadrados, faturamento anual de €10 milhões e um time de 180 funcionários.

Passadas quase três décadas, a ideia de ser campeão ficou para trás - pelo menos dentro d’água. “Gosto muito de estar na água, mas a canoagem, como todos os desportos, é bastante honesta. Agora já não sou tão bom, nem nada que se pareça, como já fui. Por isso entretenho-me muito mais em introduzir outras pessoas à modalidade.” A competitividade, agora, aparece sobretudo no chão de fábrica: “É a parte do meu trabalho de que eu mais gosto, talvez a par com estar nas competições internacio­nais e ver os nossos barcos ganhar”, afirma.

Manuel Ramos, o Nelo, segue presente no dia a dia, pressionando criatividade e limites e, segundo Nuno André, “além da inquietude, tem uma capacidade de se afastar do poder que não é muito característica na indústria portuguesa”. Mesmo sendo fundador e proprietário, “é capaz de delegar completamente, cegamente, em assuntos muito importantes e muito relevantes, se achar que a outra pessoa é capaz de fazer melhor que ele”. “Não é uma característica comum nas PME portuguesas.”

“Canoagem para todos” e a cultura da água

Daqui a cinco anos, Nuno André gostaria de ter viabilizado um barco de “canoagem para todos”. Isso significa evoluir tecnicamente e reduzir custos de produção, mas também pede uma transformação cultural em Portugal.

Na visão dele, muita gente ainda vive de costas para a água por medo - “não te chegues à água, vais cair à água, vais morrer afogado” são receios enraizados que precisam ser enfrentados - e também por um excesso de fiscalização e regras sobre o uso de espelhos d’água. Ele compara com outros lugares: “na Austrália ou na África do Sul as pessoas estão na água a toda a hora. Em Portugal existe uma mão firme sobre a prática de desportos de água e os portugueses estão de costas voltadas para a água”.

Ele defende que “Portugal tem todas as condições para ser uma das melhores nações do mundo no remo, na canoagem, na vela, no surf”. Mais do que resultados, porém, o objetivo é tornar o remo algo simples no cotidiano: que as pessoas consigam aprender a remar “com a mesma facilidade com que aprendem a andar de bicicleta” e que, assim como dizem que vão à academia, passem a falar: “vou aqui dar uma voltinha de caiaque”.

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