Reservar uma viagem online, fazer a transferência, arrumar as malas - e só no balcão de check-in descobrir: “Sua reserva não existe.” É exatamente esse o cenário que, neste momento, está afetando milhares de viajantes no mundo todo. Golpistas estão copiando a aparência de plataformas como Airbnb, Booking.com e Expedia e embolsando pagamentos sem entregar qualquer serviço.
Como portais de viagem falsos enganam turistas
À primeira vista, o golpe parece inofensivo: quem pesquisa no Google por “voos baratos” ou “apartamento de temporada barato” pode acabar, nos resultados ou em um anúncio, em uma página de reserva que parece normal. Logotipo, cores, tipografia - tudo lembra o site original.
No caso que veio a público recentemente, com um casal britânico, foi exatamente assim. Eles acreditaram estar fechando uma viagem para a Índia pela Expedia. Pagaram cerca de 2.500 libras, ou seja, pouco menos de 2.900 euros. Só no aeroporto descobriram que não havia reserva nenhuma. O endereço usado era uma cópia quase perfeita da plataforma oficial.
“Criminosos copiam design, logotipos e até textos de contato dos portais originais - para leigos, a diferença quase não dá para perceber.”
O lado mais perverso é que, em muitos casos, após a suposta reserva, a vítima é direcionada para mensageiros como o WhatsApp. Ali aparecem contas com nomes como “Fly Expedia” ou variações parecidas. Os “atendentes” pedem a confirmação dos dados e, em seguida, orientam o pagamento por transferência bancária.
Com isso, os criminosos contornam de propósito os meios de pagamento mais seguros dos portais verdadeiros. Transferiu, transferiu - estornar depois costuma ser raro.
Estudo: quase um em cada dois conhece casos desse tipo de fraude
Uma pesquisa publicada em agosto de 2024 pela OpinionWay, a pedido do Airbnb, mostra o tamanho do problema. Segundo o levantamento, cerca de 48% dos entrevistados dizem já ter sido alvo dessas tentativas de golpe ou conhecer alguém próximo que passou por isso.
De acordo com os dados, o prejuízo médio fica em torno de 2.700 euros - bem mais do que um bate-volta improvisado; para muita gente, é o orçamento da viagem do ano.
O próprio Airbnb afirma ter removido mais de 2.500 sites falsos, entre março de 2023 e março de 2024, que se passavam pela marca. A ação ocorreu a partir de alertas de usuários que relataram inconsistências.
Booking.com e ofertas de trem também estão na mira
Não são apenas Expedia e Airbnb que viraram alvo. Segundo a organização francesa de defesa do consumidor UFC-Que Choisir, os golpes envolvendo a Booking.com também têm aumentado. Durante o período dos Jogos Olímpicos em Paris, as tentativas dispararam - a entidade fala em um aumento de cerca de 900% em um ano, nesse intervalo.
Nesse caso, o roteiro costuma ser diferente: clientes que fizeram uma reserva real pela Booking.com recebem depois um e-mail visualmente idêntico ao original, supostamente enviado pela plataforma. A mensagem alega que, por motivos de segurança, seria necessário informar novamente os dados de pagamento ou realizar uma “nova validação” do cartão de crédito.
O link, porém, não leva ao site legítimo - direciona para uma página falsa extremamente semelhante. Ao digitar os dados do cartão ali, o usuário entrega aos criminosos todas as informações de que eles precisam.
Ofertas de trem também entraram no radar. No equivalente francês da Deutsche Bahn, a SNCF, surgiram páginas fraudulentas oferecendo, por exemplo, cartões de desconto por valores muito abaixo do normal. A estrutura lembra lojas falsas de ingressos - um problema que já existe há tempos com entradas de shows e partidas de futebol.
Sinais de alerta: como identificar portais falsos
Muitas vítimas relatam que, no estresse do planejamento, acabaram deixando detalhes passarem. Ainda assim, checar alguns pontos reduz bastante o risco.
Os principais indícios, de forma direta
- Endereço suspeito: pequenas diferenças no domínio (por exemplo, letras a mais ou extensões diferentes) devem acender o alerta imediatamente.
- Pagamento apenas por transferência: portais confiáveis costumam oferecer várias formas seguras de pagamento. Exigir somente transferência bancária antecipada é um sinal claro de perigo.
- Contato via WhatsApp ou e-mail pessoal: em geral, plataformas oficiais conduzem a comunicação dentro do próprio sistema.
- Pressão e ameaças: quando alguém insiste em “pagar agora” para não “perder a reserva”, normalmente não é por um bom motivo.
- Texto mal escrito: muitos sites falsos trazem erros de ortografia, frases estranhas ou mistura de idiomas.
“Regra básica: digite o endereço direto; nunca pague por links duvidosos vindos de e-mails, SMS ou anúncios.”
Reserva segura: como se proteger contra golpes de viagem
Órgãos de defesa do consumidor e as próprias plataformas apontam medidas simples, mas eficazes, para reduzir o risco.
- Digite o endereço manualmente: escreva “airbnb.com” ou “booking.com” na barra do navegador em vez de clicar em links.
- Use o app, não o navegador: prefira o aplicativo oficial do serviço. Assim, você fica bem menos exposto a páginas de phishing.
- Verifique o cadeado: confirme se há conexão criptografada (“https” e o ícone de cadeado). Isso não garante que seja legítimo, mas, sem cadeado, não prossiga.
- Não clique em links de pagamento por e-mail: entre você mesmo na sua conta e pague apenas por lá.
- Faça busca reversa de imagens: em aluguéis por temporada, uma busca por foto (por exemplo, com o Google Lens) pode ajudar. Se as imagens aparecerem em outros sites com outro anunciante, geralmente há algo errado.
A Expedia, nesse contexto, deixa claro que todas as transações legítimas acontecem apenas pelo site oficial ou pelo aplicativo. Se alguém, via mensageiro ou e-mail, pedir uma transferência bancária para supostos “funcionários”, o certo é interromper imediatamente.
O que fazer se o dinheiro já foi enviado?
Se o valor já foi transferido, cada minuto conta. O recomendado é contatar o banco imediatamente e relatar o ocorrido. Muitas vezes não é possível recuperar o dinheiro, especialmente em transferências para o exterior, mas vale tentar sempre.
Em paralelo, é indicado registrar um boletim de ocorrência na polícia, reunindo tudo o que houver: capturas de tela do site, e-mails, conversas no chat, extratos. Quanto mais casos forem formalmente documentados, maiores as chances de se mapear a estrutura por trás das redes de fraude.
Um ponto importante: como os pagamentos costumam ser iniciados “voluntariamente” pela própria vítima, não há reembolso automático como em débitos não autorizados no cartão. Alguns bancos podem ajudar por cortesia, mas isso não cria um direito garantido.
Phishing, spoofing e outros: termos essenciais
Quando o assunto é portal de viagem falso, aparecem com frequência termos de segurança digital que nem todo mundo conhece.
| Termo | Explicação curta |
|---|---|
| Phishing | Tentativa de obter senhas e dados bancários por meio de e-mails, SMS ou sites falsos. |
| Website-Spoofing | Cópia de um site existente para enganar usuários e roubar dados ou dinheiro. |
| Social Engineering | Manipulação de pessoas com pressão psicológica (por exemplo, ameaça de cancelamento) para forçar uma ação. |
Os golpes ligados a reservas de viagem pela internet quase sempre combinam os três elementos: uma página muito convincente, uma mensagem falsa por e-mail ou WhatsApp e pressão para “agir imediatamente”.
Como viajantes podem se preparar no longo prazo
Muitos serviços já trabalham em soluções técnicas, como checagens mais rígidas de anúncios, detecção de sites falsos com apoio de IA e avisos dentro dos próprios apps. Ainda assim, a última barreira geralmente é o próprio usuário.
Quem compra viagens online com frequência pode adotar rotinas simples: ler com atenção o domínio, desconfiar de e-mails e questionar o caminho do pagamento. São segundos a mais que, na prática, podem impedir que as economias do ano caiam nas mãos de golpistas.
Um conselho prático para quem viaja muito: salve nos favoritos do navegador os portais oficiais e use sempre esses links. Assim, você evita cair sem querer em uma página falsa que muda apenas uma letra ou um sufixo de país.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário