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158 tartarugas-gigantes voltam a Floreana, nas Galápagos

Pesquisadores observam tartarugas gigantes próximas a caixas de madeira em terra vulcânica nas Ilhas Galápagos.

O que parece um regresso de conto de fadas é, na prática, o resultado de análises genéticas, programas de reprodução e muito trabalho de conservação: na ilha de Floreana, no arquipélago de Galápagos, voltam a viver tartarugas-gigantes que eram dadas como extintas. O momento discreto em que 158 jovens animais saíram de caixas de transporte, rastejando, assinala uma virada para todo um ecossistema.

De “carga” viva a símbolo de recuperação

No início do século XIX, baleeiros e piratas tratavam as tartarugas-gigantes de Galápagos como mercadoria descartável. Em grande número, elas eram colocadas nos porões dos navios, empilhadas umas sobre as outras e usadas como uma despensa viva.

A lógica era cruel e pragmática: esses animais aguentavam meses sem comida e sem água e forneciam carne fresca e nutritiva - muito superior às rações salgadas guardadas em barris. Assim, milhares de tartarugas foram removidas das ilhas, inclusive de Floreana. Por volta de 1840, a subespécie local, Chelonoidis niger, passou a ser considerada exterminada.

A mesma ganância que quase eliminou as tartarugas-gigantes, sem querer, lançou a base para a sua recuperação.

Isso porque, durante as viagens, alguns indivíduos eram desembarcados novamente - em outras ilhas, quando as embarcações precisavam reduzir peso ou quando a rota mudava. Ninguém imaginava que esse hábito, justamente, daria uma segunda chance a algumas tartarugas de Floreana.

Uma busca genética num vulcão

Cerca de 160 anos depois, no começo dos anos 2000, investigadores passaram a observar com mais atenção as tartarugas-gigantes no vulcão Wolf, no norte da ilha Isabela. O material genético dos animais foi analisado - e trouxe uma surpresa.

No perfil de DNA de alguns indivíduos, surgiram sinais inequívocos da linhagem de Floreana, que se acreditava perdida. Tudo indicava que alguns animais tinham sobrevivido ao transporte para outras ilhas e, ali, cruzado com tartarugas aparentadas.

Para a equipa científica, foi como acertar na loteria: os animais com maior ligação genética a Floreana foram selecionados para iniciar uma “recriação” da linhagem. Aproximadamente 20 exemplares com o conjunto de genes mais compatível tornaram-se a base de um programa exigente de reprodução em cativeiro no centro de criação da ilha de Santa Cruz.

158 filhotes regressam à antiga casa

Depois de anos de reprodução controlada, chegou o grande dia, em fevereiro de 2026: 158 tartarugas-gigantes jovens, com idades entre oito e 13 anos, foram soltas em Floreana. Pela primeira vez em 180 anos, representantes dessa linhagem voltaram a pisar na ilha onde tinham evoluído originalmente.

A soltura não foi apenas um marco científico; também teve forte carga emocional. Toda a comunidade da ilha foi convidada. Crianças deram nomes aos primeiros animais libertados. Para muitos moradores mais velhos, foi a concretização de algo que os avós conheciam apenas como história.

Para as pessoas de Floreana, um pedaço da história natural que por décadas existiu só em relatos voltou a ficar visível e concreto.

Por que as tartarugas-gigantes são indispensáveis para o ecossistema

Em Galápagos, as tartarugas-gigantes não são figurantes “decorativos”: elas são um exemplo clássico de espécie-chave. Em outras palavras, o funcionamento de muitas outras espécies depende do que elas fazem.

Esses animais

  • espalham sementes de plantas nativas por longas distâncias,
  • moldam a vegetação ao pastar e ao abrir trilhas com as suas pegadas,
  • criam pequenos lamaçais e depressões - os chamados “wallows” - que servem de habitat para outras espécies.

A ilha Española mostra o tamanho desse efeito. Lá, tartarugas-gigantes já tinham sido reintroduzidas anteriormente. Um estudo publicado na revista científica “Conservation Letters” em 2023 indica que, depois do retorno dos animais, as populações de cactos Opuntia recuperaram-se de forma significativa. Essas plantas são consideradas um recurso-chave para a fauna local. Em paralelo, também aumentaram as populações de iguanas terrestres.

Rakan Zahawi, diretor da Fundação Charles Darwin, resumiu a ideia: as tartarugas restabelecem dinâmicas ecológicas das quais muitas plantas e animais dependem. Sem elas, processos centrais, como dispersão de sementes e formação de áreas abertas, ficam incompletos.

O impacto chega até ao mar

A influência das tartarugas não termina na linha da costa. Em Floreana, elas interagem de perto com aves marinhas. Onde esses répteis estruturam a vegetação, surgem locais de nidificação mais adequados para aves do mar. Colónias saudáveis, por sua vez, levam nutrientes para as águas ao redor - por exemplo, através do guano.

Com isso, beneficiam-se recifes de coral, pradarias marinhas e áreas de pesca. Assim, um projeto terrestre centrado em tartarugas-gigantes liga o futuro da ilha à produtividade dos ecossistemas marinhos vizinhos.

Grande ofensiva contra ratos, gatos e outros invasores

O regresso das tartarugas não teria sentido se Floreana continuasse dominada por espécies introduzidas. Ao longo de séculos, ratos, gatos ferais e outros recém-chegados reduziram drasticamente a fauna nativa. Ovos e filhotes de aves tornaram-se presa fácil; caracóis e répteis praticamente desapareceram.

Por isso, desde 2023, a ilha conduz uma campanha ampla de controlo de espécies invasoras. Armadilhas, programas de isco e medidas rigorosamente supervisionadas já apresentam efeitos mensuráveis.

Primeiros resultados:

  • espécies endémicas de tentilhões voltam a mostrar crescimento populacional;
  • o raro pássaro Pachay, descrito pela última vez na época de Darwin, em 1835, foi observado novamente;
  • caracóis nativos, considerados desaparecidos havia mais de um século, reaparecem.

As tartarugas, assim, representam apenas o começo de um plano muito maior. Nos próximos anos, outras espécies devem voltar, entre elas a cobra-corredeira de Floreana, o frosone vermiglione (um tentilhão de coloração intensa), o petrel-de-tempestade-de-lava de Galápagos, um tipo específico de sabiá-zombeteiro e várias outras espécies de tentilhões. Algumas regressarão por conta própria, quando habitat e alimento voltarem a ser adequados; outras exigirão programas tão trabalhosos quanto o das tartarugas.

Parte de um projeto global para a natureza insular e marinha

O que acontece em Floreana integra uma iniciativa maior: a “Island-Ocean Connection Challenge”. Até 2030, a meta é restaurar ecologicamente 40 ilhas de especial relevância em todo o mundo e conectá-las às áreas marinhas ao redor. A lógica é direta: ao recuperar ilhas, fortalece-se também o oceano - e o inverso também vale.

Componente Objetivo em Floreana
Regresso das tartarugas-gigantes Repor processos essenciais do ecossistema em terra
Controlo de espécies invasoras Proteger aves, répteis e invertebrados endémicos
Reintrodução de outras espécies-chave Fechar lacunas ecológicas, por exemplo na cadeia alimentar
Fortalecimento das aves marinhas Aumentar a entrada de nutrientes em recifes e zonas de pesca

O que leitores do Brasil podem aprender com Floreana

A trajetória das tartarugas de Galápagos mostra como destruição e recuperação, às vezes, ficam ligadas de forma paradoxal. Sem os deslocamentos violentos do século XIX, hoje não existiria material genético da linhagem de Floreana. Ao mesmo tempo, nada disso teria sido necessário se a intervenção humana não tivesse sido tão intensa.

Para conservacionistas no mundo todo, Floreana deixa sinais claros:

  • análises genéticas podem “trazer de volta” linhagens consideradas perdidas;
  • sem remover espécies invasoras, qualquer reintrodução permanece arriscada;
  • o êxito depende fortemente do apoio da população local.

Projetos comparáveis já acontecem em ilhas do Mediterrâneo e também no mar do Norte e no mar Báltico - ainda que, nesses casos, o foco não seja tartarugas-gigantes, mas aves marinhas, focas, plantas raras ou paisagens de dunas. Onde espécies-chave como pradarias marinhas, certos moluscos ou aves costeiras regressam, sistemas costeiros inteiros tendem a estabilizar-se.

O que significa “espécie-chave” - e por que o conceito importa

A expressão “Keystone Species” vem da ecologia e descreve espécies que sustentam o seu ecossistema - como a pedra-chave num arco: quando ela é removida, a estrutura colapsa ou perde estabilidade.

Nas tartarugas-gigantes, isso aparece de forma concreta:

  • sem elas, arbustos e estratos arbóreos envelhecem, porque quase não há mais dispersão de sementes;
  • faltam pequenas áreas abertas onde certas plantas pioneiras conseguem estabelecer-se;
  • espécies animais adaptadas aos lamaçais e trilhas criados pelas tartarugas perdem o seu espaço.

Quem planeia políticas de conservação de longo prazo precisa considerar esse tipo de espécie. Investir em espécies-chave costuma ter retorno desproporcionalmente alto, porque estabiliza redes ecológicas inteiras.

Floreana, assim, oferece um exemplo raro de segunda oportunidade: um ecossistema que quase foi desequilibrado pela ação humana recebe, com ciência moderna e muita persistência, uma chance real de recuperação. As tartarugas jovens, ainda com carapaças relativamente pequenas, estão no começo desse processo - e provavelmente só mostrarão todo o seu efeito quando os filhotes de hoje, muitos ainda sem nome, já tiverem virado gigantes anciões da ilha.


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