Enquanto o Halloween convida a entrar no clima do macabro e do sobrenatural, os sustos mais reais desta época não ficam restritos a histórias de fantasmas.
De dedos feridos ao esculpir abóboras a infeções associadas a lentes de contato que podem chegar a provocar doenças cardíacas potencialmente fatais, a festa traz riscos médicos concretos - alguns surpreendentemente graves.
Ferimentos com abóboras e queimaduras no Halloween
Nos EUA, 44% das lesões relacionadas ao Halloween têm origem na escultura de abóboras, indo de pequenos arranhões a cortes profundos que atingem nervos importantes, vasos sanguíneos e tendões. Facas e ferramentas específicas para esculpir abóbora mostraram ser muito mais seguras, embora não eliminem totalmente o risco.
As abóboras também se tornam mais perigosas quando se coloca uma vela acesa dentro delas. A chama pode incendiar a casa ou fantasias, e não é raro que as vítimas fiquem com queimaduras severas. Todos os anos, há um aumento notável de lesões por queimadura na época do Halloween, sobretudo entre crianças.
Um caso de grande repercussão envolveu a personalidade de TV Claudia Winkleman: em 2014, a filha dela, Matilda, então com oito anos, sofreu ferimentos que mudaram a sua vida quando a fantasia de Halloween pegou fogo.
Fantasias, trânsito e alergias: perigos fora do óbvio
As próprias fantasias criam vários perigos além das queimaduras. Roupas mal ajustadas podem causar fraturas por escorregões e tropeções, e máscaras ou adereços pesados na cabeça reduzem o campo de visão. Outra ameaça é a alergia ao látex presente em materiais de fantasia, que pode provocar desde irritação e erupções cutâneas até, em casos muito raros, morte.
A combinação de noites escuras de outubro com fantasias escuras forma um cenário particularmente arriscado. Dados do Reino Unido, ao longo de 27 anos, mostraram que, no Halloween, o risco de crianças morrerem ou sofrerem ferimentos graves em acidentes de trânsito é maior do que em qualquer outro dia - e 34% maior entre 17h e 18h, provavelmente por coincidir com a hora do pico.
Nos EUA, as mortes de crianças pedestres são quatro vezes mais altas no Halloween do que em qualquer outro dia. Um estudo separado concluiu que há quatro mortes adicionais de pedestres no Halloween quando comparado a outros dias.
Lentes de contato, maquilhagem e presas: riscos para olhos e boca
No Halloween, as aparências podem enganar - às vezes de forma literal. Lentes de contato coloridas apresentam riscos significativos para a saúde dos olhos e para o bem-estar geral. Elas podem provocar irritação e vermelhidão, lesões oculares quando se partem e cortam a superfície do olho, ou até uma infeção cardíaca potencialmente fatal.
Lesões no olho, causadas por lentes mal ajustadas ou de baixa qualidade, podem favorecer o crescimento de bactérias. Esses microrganismos podem sair do olho e migrar - muitas vezes pela corrente sanguínea - para outras partes do corpo.
Um dos locais onde podem “se instalar” é o coração, desencadeando problemas como a endocardite infecciosa, que mata cerca de uma em cada cinco pessoas com a condição. O tratamento é difícil porque medicamentos e células do sistema imunitário têm dificuldade em alcançar o revestimento interno do coração.
No Reino Unido, as lentes de contato, incluindo as de fantasia ou sem grau, são classificadas como dispositivos médicos e exigem prescrição.
As tintas faciais trazem riscos imediatos e de longo prazo. Irritação na pele e obstrução dos poros podem surgir rapidamente, assim como arranhões na córnea caso a tinta entre nos olhos. Já a ingestão e a exposição prolongada ou repetida podem aumentar o risco de absorção de elementos potencialmente tóxicos, como metais pesados e arsénio, que elevam o risco de cancro.
Presas de plástico e outros kits que alteram os dentes também podem causar danos. Como costumam ser vendidos em tamanho único, é provável que afrouxem os dentes e agravem qualquer folga já existente. Se for usar adesivo para fixá-los, verifique se é um produto aprovado para uso odontológico. Materiais como supercola e colas de unha danificam o esmalte dentário - uma camada que não se regenera - e podem queimar a gengiva e o interior da boca.
Diarreia de Halloween
A preocupação mais óbvia no Halloween é sentir-se mal por comer doces ou chocolate em excesso. Ainda assim, nos últimos anos, surgiram outros riscos associados ao consumo.
Em países que legalizaram ou descriminalizaram a canábis, aumentaram de forma evidente as internações de crianças que ingeriram balas de goma com THC ou outras substâncias proibidas.
Para quem está a controlar as calorias, opções sem açúcar podem acabar a ter o efeito oposto - um fenómeno por vezes chamado de "diarreia de Halloween".
O sorbitol, um adoçante artificial usado em produtos sem açúcar, tem apenas cerca de 60% da doçura da sacarose, o que significa que é necessário adicionar mais para alcançar o sabor desejado. Apenas 20 g de sorbitol já podem ter efeito laxativo em 50% das pessoas saudáveis. Para comparação, um tablete de pastilha elástica sem açúcar tem aproximadamente 1,25 g.
Balas duras representam risco de engasgamento o ano todo, mas especialmente para crianças menores - e o aumento do consumo de doces no Halloween eleva ainda mais essa probabilidade. Para crianças com alergia a frutos secos, há um perigo adicional: a incidência de anafilaxia relacionada a frutos secos aumenta em aproximadamente 70% no Halloween.
Para além da comida, outras tradições do Halloween também trazem riscos. Traumas oculares causados por ovos atirados como projéteis são vistos com frequência durante as celebrações, e algumas vítimas perdem a visão devido a esse tipo de lesão.
Determinados crimes - e os ferimentos associados - também se tornam mais comuns por volta do Halloween, com um aumento expressivo de agressões. A comercialização das celebrações é apontada como um dos fatores, e promoções de bebidas ajudam a explicar parte do problema.
Medidas de bom senso - como usar luzes ou faixas refletivas ao sair com crianças, moderar o consumo de doces e supervisionar tarefas como esculpir abóboras - podem reduzir substancialmente a possibilidade de virar mais uma estatística hospitalar do Halloween.
Adam Taylor, Professor de Anatomia, Lancaster University
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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