A fruta da baga de mármore africana (Pollia condensata) parece uma pedra preciosa viva: ela exibe um brilho azul metálico impressionante que, ao que tudo indica, não perde a intensidade com o tempo.
Por que a baga de mármore (Pollia condensata) parece azul?
Apesar do que o olho sugere, essas bagas não são azuis no sentido mais comum. Pelo menos, não há nelas qualquer pigmento azul. O tom frio surge de uma ilusão óptica sofisticada, que só fica clara quando se observam de perto, ao microscópio, as células do fruto.
Foi exatamente esse tipo de análise minuciosa que uma equipa liderada por investigadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, realizou para entender como essa baga, com aspecto de mármore, conquista a sua aparência singular.
Cor estrutural: como a luz é “filtrada” sem pigmento
Em geral, o nosso mundo de cores depende da coloração subtrativa. Materiais absorvem combinações de comprimentos de onda presentes na luz branca; o que não é absorvido acaba por definir a cor percebida.
Aqui, porém, o fruto recorre a um truque de cor estrutural: fibras na parede externa das células são organizadas num padrão especial de torção, o que faz com que as ondas de luz interfiram entre si.
Com essa organização em camadas, algumas ondas se anulam, enquanto outras se reforçam, produzindo uma iridescência muito específica em certas faixas do espectro. Neste caso em particular, os comprimentos de onda associados ao azul são os que, predominantemente, “sobram”.
"A coloração azul brilhante deste fruto é mais intensa do que a de muitos materiais biológicos descritos anteriormente", escrevem os investigadores.
"Este é o maior índice de refletividade já reportado para qualquer organismo biológico terrestre, incluindo exoesqueleto de besouros, penas de aves e o azul notoriamente intenso das escamas da borboleta Morpho."
Refletividade e efeito “pixelado” do fruto
Há muitos exemplos de cor estrutural na natureza, mas ela não é tão comum em frutos. Um mecanismo relacionado aparece no fruto da árvore Elaeocarpus angustifolius, embora com menos brilho.
Comparando com a luz refletida por um espelho de prata, a baga de mármore reflete 30 por cento da luz que a atinge - um valor invulgarmente alto. E, embora a torção e o empilhamento das fibras façam o azul dominar, outras cores também entram na mistura, resultando num aspeto final levemente “pixelado”.
"A nossa investigação demonstra que a variação na espessura das multicamadas nos frutos de Pollia fornece uma resposta óptica que aparentemente é única na natureza", escrevem os investigadores.
"Enquanto a refletância azul é dominante, a distribuição esparsa de células que refletem verde e vermelho confere ao fruto uma aparência pixellada (pontilhista) intrigante, não registada em qualquer outro organismo."
O que a planta ganha com esse brilho duradouro?
Segundo os investigadores, existe um motivo para toda essa exibição: ao atrair aves com a sua aparência chamativa, o fruto de P. condensata pode garantir que as sementes sejam dispersas a distâncias maiores, ajudando a espécie a persistir.
Por causa da forma como as células são construídas, a fruta consegue manter a boa aparência durante décadas.
Como a baga não tem valor nutricional, esse fruto que transporta sementes precisa apostar em destacar-se visualmente.
Penas de pavão usam um tipo semelhante de estratégia para chamar a atenção, embora nesse caso se utilize uma abordagem diferente de cor estrutural, em combinação com pigmentos.
Mais uma vez, milhões de anos de evolução calibraram a natureza de um modo profundamente impressionante - mesmo antes de se conhecer o “truque” por trás do efeito. E, quando o assunto é criar as nossas próprias cores e materiais, ainda estamos a correr atrás.
"Esta plantinha obscura encontrou uma forma fantástica de produzir um sinal irresistível, brilhante, cintilante, multicolorido e iridescente para cada ave nas proximidades, sem desperdiçar as suas preciosas reservas fotossintéticas a produzir alimento para pássaros", diz Beverley Glover, cientista de plantas da Universidade de Cambridge.
A pesquisa foi publicada na PNAS.
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