A noção de que hotéis de luxo ficam restritos a um grupo muito pequeno de viajantes vem perdendo força. O Hotel Price Index (HPI) 2026, da Hoteis.com, mostra que brasileiros têm encontrado mais brechas para se hospedar em empreendimentos de alto padrão - efeito da soma entre mais flexibilidade para reservar, busca por custo-benefício e novas formas de montar a viagem.
Dentro desse cenário, eu me hospedei, a convite da Hoteis.com, no Rosewood São Paulo. O endereço é um dos mais emblemáticos da hotelaria de luxo no país e está entre os dois hotéis brasileiros que receberam três chaves no Guia Michelin no ano passado - distinção concedida a apenas 143 propriedades no mundo.
O outro brasileiro reconhecido foi o Hotel das Cataratas, da rede Belmond, dentro do Parque Nacional do Iguaçu.
Instalado em parte da Cidade Matarazzo, na Bela Vista, região central de São Paulo, o Rosewood vai além do papel de hospedagem. Na prática, ele se conecta ao projeto de revitalização que requalificou um conjunto histórico - incluindo uma antiga maternidade - e o reposicionou como polo de hotelaria de luxo, gastronomia sofisticada, cultura e eventos.
Entre história e arquitetura
Logo no desembarque, uma marca do Rosewood São Paulo fica evidente: a maneira como áreas verdes se encaixam entre prédios históricos e volumes contemporâneos.
O conjunto envolve a restauração de edificações ligadas à antiga Maternidade Condessa Filomena Matarazzo e a construção da Torre Mata Atlântica, desenhada pelo arquiteto francês Jean Nouvel - vencedor do Prêmio Pritzker, considerado a maior premiação da arquitetura no mundo.
A torre mais recente chama atenção no horizonte paulistano por ser abraçada por vegetação, com conceito pensado para conversar com referências da Mata Atlântica. Também virou assunto por causa de hóspedes famosos, como o atacante holandês Memphis Depay, jogador do Corinthians. Dizem que a estrela corintiana e da seleção da Holanda “mora” na Penthouse Suite, que ocupa três andares, tem 900 metros quadrados de área, jardim na cobertura e piscina de borda infinita com visão panorâmica da capital paulista ao custo mensal de R$ 250 mil. O hotel não confirma, e a equipe também não comenta sobre os “hóspedes”, nem em “off”.
Já os interiores levam a assinatura do designer Philippe Starck, que mistura linguagem contemporânea com referências brasileiras espalhadas pelos ambientes.
Um hotel que funciona como galeria
No Rosewood São Paulo, a arte aparece já na recepção e segue acompanhando o hóspede pelo restante da estadia.
Há uma coleção permanente com mais de 450 obras de artistas brasileiros, distribuídas por corredores, áreas comuns, restaurantes e pelas 181 acomodações. Entre os artistas presentes estão Vik Muniz, Sandra Cinto, Ernesto Neto e Regina Silveira. A literatura também entra na experiência: está em detalhes pelo hotel e em uma pequena livraria no lobby.
O próprio hotel organiza visitas guiadas focadas no acervo, fazendo com que parte da hospedagem vire programa cultural. Dica: o “Tour das Artes” acontece diariamente, às 15h, e não tem custo para hóspedes - basta comunicar o concierge. Em outros horários, a atividade é cobrada: R$2,200 para grupos de até quatro pessoas.
O resultado é a impressão de atravessar uma galeria distribuída entre diferentes edifícios, com obras, instalações, murais e intervenções produzidas sob medida para o projeto.
Gastronomia é destaque no Rosewood São Paulo
A comida é um dos eixos da experiência no Rosewood São Paulo. Ao todo, são seis restaurantes e bares no complexo Cidade Matarazzo, o que permite transformar a hospedagem em um roteiro gastronômico sem sair da propriedade.
O principal é o concorrido Taraz, liderado pelo chef Felipe Bronze, do Oro, no Rio de Janeiro. O restaurante ocupa um salão amplo - a antiga recepção da maternidade - e se abre para a vegetação da Cidade Matarazzo. A proposta se apoia na cozinha sul-americana e usa a brasa como principal linguagem.
Pensado para compartilhar, o menu reúne referências de Brasil, Argentina, Peru, Chile e outros países do continente. Há ceviches, tiraditos e causas com influência peruana, ao lado de preparos de parrilla; ingredientes como milho, mandioca, limão e pimentas atravessam várias receitas.
Entre as entradas que mais valem atenção estão as empanadas de wagyu, figurinha carimbada entre os pedidos. A massa leve envolve um recheio suculento e resume a ideia do Taraz: aplicar técnicas e receitas sul-americanas tradicionais com insumos de altíssima qualidade. Ceviches e tiraditos feitos no balcão central também se destacam, remetendo às cevicherias peruanas.
Nos principais, o fogo assume o centro do palco. Carnes, peixes e vegetais ganham profundidade com o preparo na brasa, enquanto acompanhamentos inspirados em cozinhas latino-americanas reforçam a sensação de “viagem” pelo continente. O salão avança para uma varanda cercada por oliveiras, em um clima que pede refeições demoradas - especialmente no jantar ou nos almoços de domingo, quando o restaurante costuma estar entre os mais disputados do complexo. É preciso reservar antes de ir.
Outro queridinho é o Le Jardin, nos jardins da antiga maternidade. Com mesas ao ar livre sob árvores e vegetação, funciona em diferentes momentos do dia e atrai tanto hóspedes quanto paulistanos que buscam uma pausa do ritmo da região da Paulista. É ali que também acontece o café da manhã, além de almoço, lanches leves e jantar (veja o cardápio aqui).
No café da manhã, a sugestão é pedir o Gran Café, que inclui seleção de sucos, cafés, pães artesanais, frutas frescas, pão de queijo e a escolha de dois itens de especialidades, como tartines e sanduíches, por R$ 210.
A oferta segue com o Blaise, que presta tributo ao poeta, escritor e viajante franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961), ligado ao modernismo brasileiro e próximo de nomes como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Essa camada cultural aparece na personalidade do espaço, que lembra muito uma cabana nos Alpes.
Aberto somente no jantar, o Blaise propõe uma experiência mais resguardada em meio à movimentação da Cidade Matarazzo. Instalado em um dos prédios históricos recuperados, aposta em iluminação suave e atendimento discreto, fazendo do jantar uma extensão da proposta do Rosewood de reunir gastronomia, arte e patrimônio no mesmo endereço.
O menu contemporâneo valoriza ingredientes brasileiros em diálogo com técnicas francesas, com pratos bem executados e sem exageros. A dica é escolher o menu experiência (Snack de rosbife angus brasileiro; Crudo de peixe; Peixe assado; Paleta de porco preto e o tradicional Romeu e Julieta de sobremesa), que custa R$ 650.
Para uma pegada mais informal, o Rabo di Galo funciona como um dos pontos de encontro mais concorridos do complexo. O bar homenageia o coquetel brasileiro criado na década de 1950 e usa como inspiração os antigos clubes de jazz americanos. O décor mistura madeira escura, pouca luz, sofás e poltronas com clima anos 1930, em contraste com a arquitetura contemporânea ao redor.
A carta de drinques parte da mixologia brasileira, mas traz releituras atuais e ingredientes nacionais menos óbvios. Cachaças de diferentes regiões dividem espaço com vermutes, bitters artesanais, infusões e destilados internacionais, construindo combinações que valorizam a diversidade de sabores do Brasil.
No topo do edifício histórico, fica o Bela Vista Bar, rooftop que se tornou um dos espaços mais disputados da Cidade Matarazzo. O nome faz referência ao bairro e à vista aberta para a região da Avenida Paulista. Sob liderança da chef-executiva Rachel Codreanschi, o cardápio busca inspiração em países banhados pelo Mediterrâneo. Frutos do mar aparecem com força, em pratos como polvo grelhado e tartare de atum com coalhada de ovelha, além de petiscos e sobremesas alinhados a sabores frescos e ingredientes de origem mediterrânea.
A coquetelaria leva a assinatura do mixologista Gabriel Bressane e conversa com a proposta do menu. A carta reúne criações autorais com ingredientes como jerez, cajuína, vermute e infusões desenvolvidas para o bar. Em vez de depender só de clássicos, o Bela Vista aposta em combinações menos esperadas, pensadas para acompanhar o que sai da cozinha.
A área interna do Bela Vista também entra no pacote: móveis garimpados em antiquários, luz indireta e arte contemporânea no salão criam um clima que foge do rooftop “padrão”.
Piscina que é uma obra de arte e foca no bem-estar
As áreas de bem-estar seguem a mesma lógica do Rosewood São Paulo: integrar arquitetura, natureza e experiência. Além da piscina no rooftop, o hotel tem a Emerald Garden Pool & Bar, em uma parte mais reservada do complexo, conectada aos jardins e aos prédios históricos restaurados.
O clima ali prioriza silêncio e proximidade com a vegetação - bem diferente do que se encontra na cobertura - e reforça a sensação de estar em um destino distante do centro da maior cidade do país.
Há bangalôs privativos, jacuzzi, espreguiçadeiras e serviço de bar, como uma extensão natural dos jardins e um convite para passar horas ao ar livre. A piscina é aquecida, com temperaturas em torno dos 29ºC.
O bem-estar ganha ainda mais peso no Asaya Spa by Guerlain, primeira operação da maison francesa Guerlain no Brasil. Em uma área de cerca de 1.200 metros quadrados, o spa une a expertise da marca criada em Paris em 1828 à proposta de wellness que a Rosewood desenvolve para seus hotéis ao redor do mundo.
A ideia é funcionar como refúgio dentro do próprio Rosewood. O caminho começa antes dos tratamentos, em ambientes desenhados para desacelerar e favorecer uma vivência mais contemplativa. Arquitetura e interiores mantêm a mesma linguagem do hotel, com materiais naturais, arte e referências brasileiras.
Um ponto que se destaca é a sala de cristais. O espaço reúne cerca de 400 cristais de quartzo branco, em diferentes tamanhos, vindos de Minas Gerais, criando um ambiente silencioso e voltado ao relaxamento. As pedras entram como parte da proposta de conexão com elementos naturais brasileiros, e a sala acaba sendo uma das áreas mais procuradas por quem quer uma pausa entre sessões.
O menu combina protocolos da Guerlain com experiências exclusivas do Rosewood São Paulo. Há massagens corporais, terapias faciais, rituais relaxantes e programas personalizados que podem durar algumas horas ou preencher um dia inteiro. A proposta não se limita à estética: a intenção é entregar equilíbrio físico e mental.
A estrutura inclui salas individuais e para casais, áreas de descanso, sauna (seca e a vapor), banhos terapêuticos, salão de beleza e um fitnes center com equipamentos de última geração. Assim como nos restaurantes e nas áreas comuns, fica a sensação de que cada ambiente foi planejado para ser imersivo, como se o tempo tivesse outro compasso.
Os tratamentos variam de R$ 780 até R$ 4.700. Também dá para comprar produtos, dos cremes usados nas salas de massagem às fragrâncias de alta perfumaria L’Art & La Matière.
Entre obras de arte, design brasileiro e vista para a cidade
A hospedagem no Rosewood São Paulo se revela nos quartos e suítes - mas tratá-los apenas como “acomodações” é reduzir a experiência. Entre os edifícios históricos restaurados e a Torre Mata Atlântica, as 181 unidades foram concebidas como refúgios urbanos em meio ao ritmo acelerado da capital. Em vez de replicar o padrão internacional comum em hotéis de luxo, cada espaço busca traduzir cultura, design e materiais do Brasil.
O projeto de interiores combina referências clássicas com soluções contemporâneas. Boa parte do mobiliário foi feita por designers e artesãos brasileiros, com matérias-primas nacionais como madeira, pedra e fibras naturais. Obras de arte, peças exclusivas e objetos criados para o hotel reforçam a ideia de identidade própria em cada unidade, distanciando a estadia da padronização típica de grandes redes.
A paleta puxa para tons suaves, com luz indireta e um clima mais residencial do que hoteleiro. Conforme a categoria e a posição do quarto, as janelas podem enquadrar os jardins da Cidade Matarazzo, construções históricas do complexo ou o skyline paulistano. Em muitas suítes, a conexão entre estar, dormitório e banheiro amplia a percepção de espaço e privacidade.
Nos banheiros, mármores brasileiros, amenidades de alto padrão e banheiras bem posicionadas reforçam a intenção de transformar o quarto em lugar de permanência - não apenas de passagem. A leitura é clara: o hotel incentiva o hóspede a desacelerar e usar cada ambiente, algo raro em uma cidade movida a pressa.
Essa lógica aparece também em um dos serviços mais particulares do Rosewood: o room service. Em vez do formato tradicional de hotel, o cardápio foi desenhado como continuação da experiência gastronômica dos restaurantes do complexo. Disponível ao longo do dia, reúne opções do café da manhã ao jantar, com pratos feitos com ingredientes frescos e sazonais.
A iniciativa vem de parcerias com produtores locais e fornecedores que abastecem o hotel com regularidade. Entre os ingredientes, aparecem mel de abelhas nativas brasileiras, hortaliças cultivadas por agricultores da região e azeite extravirgem produzido no sul de Minas Gerais. A proposta reforça o compromisso do Rosewood com pequenos produtores e com a biodiversidade nacional, pauta presente em diferentes áreas da operação.
Outro ponto fora da curva é o cuidado com quem viaja com animais de estimação. O serviço de quarto inclui itens criados especialmente para cães e gatos - algo incomum até mesmo entre hotéis de alto padrão. A iniciativa acompanha a filosofia de personalizar a estadia de acordo com o perfil de cada visitante.
Ao final, quartos e suítes ajudam a comunicar a essência do Rosewood São Paulo. Mais do que conforto, eles sintetizam os elementos que definem o hotel: design brasileiro, arte, gastronomia, atenção aos detalhes e uma hospitalidade que tenta criar uma conexão real entre o hóspede e a cidade.
Durante a estadia, fica claro que o Rosewood foi pensado não só como hotel, mas como um destino dentro da própria cidade
O novo olhar para o luxo
A passagem pelo Rosewood ilustra uma das direções apontadas pelo Hotel Price Index 2026. De acordo com o estudo, o público tem relacionado luxo cada vez mais a experiências e serviços - e não somente à classificação tradicional por estrelas.
O próprio relatório destaca que não existe um sistema universal de classificação hoteleira. Cada país trabalha com seus próprios critérios, que podem envolver conforto, infraestrutura, serviços, sustentabilidade e avaliações dos hóspedes.
Nesse contexto, selos independentes ganham peso. As três chaves Michelin recebidas pelo Rosewood colocam a propriedade em um grupo muito restrito de hotéis vistos como referência em hospitalidade no mundo.
Ao mesmo tempo, números da Hoteis.com sugerem que mais brasileiros vêm buscando justamente esse tipo de experiência, usando estratégias de reserva e períodos de menor demanda para alcançar hotéis que, até poucos anos atrás, pareciam fora do alcance da maioria dos viajantes.
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